sábado, 28 de maio de 2011

LIÇÃO DE FUKUSHIMA - quando será aqui?‏

Repassando. Quando o altruísmo for incentivado desde a infância, em todas as culturas, certamente teremos um mundo melhor.



A carta a seguir foi escrita por Ha Minh Thanh, um imigrante
vietnamita que é policial em Fukushima no Japão, a seu irmão, mas
acabou chegando a um jornal em Shangai que a traduziu e publicou.

Querido irmão,

Como estão você e sua família? Estes últimos dias tem sido um
verdadeiro caos. Quando fecho meus olhos, vejo cadáveres e quando os
abro, também vejo cadáveres. Cada um de nós está trabalhando umas 20
horas por dia e mesmo assim, gostaria que houvesse 48 horas no dia
para poder continuar ajudar e resgatar as pessoas.
Estamos sem água, eletricidade e as porções de comida estão quase a
zero. Mal conseguimos mudar os refugiados e logo há ordens para
mudá-los para outros lugares.
Atualmente estou em Fukushima – a uns 25 quilômetros da usina nuclear.
Tenho tanto a contar que se fosse relatar tudo, essa carta se tornaria
um verdadeiro romance sobre relações humanas e comportamentos durante
tempos de crise.

As pessoas aqui permanecem calmas – seu senso de dignidade e
comportamento são muito bons – assim, as coisas não são tão ruins como
poderiam. Entretanto, mais uma semana, não posso garantir que as
coisas acabem chegando a um ponto onde não poderemos dar proteção e
manter a ordem de forma apropriada.

Afinal de contas, eles são humanos e quando a fome, a sede se
sobrepõem à dignidade, farão o que tiver que ser feito para conseguir
comida e água. O governo está tentando fornecer suprimentos pelo ar
enviando comida e medicamentos, mas é como jogar um pouco de sal no
oceano.

Irmão querido, houve um incidente realmente tocante que envolveu um
garotinho japonês que ensinou a um adulto como eu, uma lição de como
se comportar como um verdadeiro ser humano.

Ontem à noite fui enviado para uma escola infantil para ajudar uma
organização de caridade a distribuir comida aos refugiados. Era uma
fila muito longa e notei, no final dela, um garotinho de uns 9 anos
que usava uma camiseta e um short.

Estava ficando muito frio e fiquei preocupado se, ao chegar sua vez,
poderia não haver mais comida. Fui falar com ele. Ele contou que
estava na escola quando o terremoto ocorreu. Seu pai, que trabalhava
perto, estava se dirigindo para a escola para apanhá-lo e ele, que
estava no terraço do terceiro andar, viu quando a onda tsunami levou o
carro com seu pai dentro.

Perguntei sobre sua mãe e ele disse que sua casa era bem perto da
praia e que sua mãe e sua irmãzinha provavelmente não sobreviveram.
Notei que virou a cabeça para limpar uma lágrima quando perguntei
sobre sua família.

O garoto estava tremendo. Tirei minha jaqueta de policial e coloquei
sobre ele. Foi ai que a minha bolsa de bentô (comida) caiu. Peguei-a e
dei-a a ele dizendo: “Quando chegar a sua vez a comida pode ter
acabado. Assim, aqui está a minha porção. Eu já comi. Por que você não
come”?

Ele pegou a minha comida e fez uma reverência. Pensei que ele iria
comer imediatamente, mas ele não o fez. Pegou a comida, foi até o
início da fila e colocou-a onde todas as outras comidas estavam
esperando para serem distribuídas.

Fiquei chocado. Perguntei-lhe por que ele não havia comido ao invés
de colocar a comida na pilha de comida para distribuição. Ele
respondeu: “Porque vejo pessoas com mais fome que eu. Se eu colocar a
comida lá, eles irão distribuí-la mais igualmente”.

Quando ouvi aquilo, virei-me para que as pessoas não me vissem chorar.
Uma sociedade que pode produzir uma pessoa de 9 anos que compreende o
conceito de sacrifício para o bem maior, deve ser uma grande
sociedade, um grande povo.

Bem, envie minhas saudações à sua família. Tenho que ir, meu plantão
já começou.

Ha Minh Thanh

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